segunda-feira, julho 02, 2007

Palavras na Areia





Ao quarto dia sem o ver, segui até ao terraço e encontrei em cima da mesa uma carta. Peguei cuidadosamente com um receio parvo de a rasgar sem querer, e li:

"Querida Concha:
No Mar existem muitas conchas. Umas bonitas e boas, e outras más e feias. Procurei as conchas boas, mas não as encontrei. Estavam partidas ou riscadas. Cortavam. Até que, um dia, a maré trouxe até mim uma concha. Colorida e transparente. Essa concha abriu-se e eu sentei-me lá dentro. Para sempre."

Li outra vez e mais outra até decorar todo o texto. Depois, sentei-me á mesa e tive vontade, pela primeira vez á muito tempo, de escrever um poema.
Fechei os olhos sob o sol generoso da tarde e escrevi mentalmente o que sentia naquele momento. Não já exactamente as palavras que acalentei no coração para responder aquela carta - a mais bonita que já recebi. Mas sei o que senti: medo. Um terrível medo terrível de não saber o que fazer com aquele sentimento grande, que se tornava maior do que eu. Medo de não estar á altura, de o desapontar. Medo de tudo não passar de um dos meus sonhos com coisas improváveis. E sobretudo, medo de o perder, embora tivesse agora a certeza do que aquele "Para sempre" significava.
Desci até á praia e consegui avista-lo atrás de um onda, a nadar com um peixe. Assim que me viu, acenou-me como que em chamamento. E eu chorei. Não sei se de alegria ou de pena de não ser mesmo essa concha transparente que ele pudesse transportar consigo nas fantásticas viagens que fazia diariamente por entre ondas, algas, e estrelas do mar.
Quando dei por mim estava á beira-mar. Descalcei os sapatos. A água fria
insistiu em acordar-me e eu não queria.
- Está quentinha! - disse o meu companheiro, saindo do mar e borrifando-me os cabelos com gotas salgadas.
- Está um gelo!
Riu-se.
- Senta-te aqui - pediu-me, puxando a dobra dos meus calções.
- Sabes... - prossegui eu.
- Encontrei um braço de lula gigante lá no fundo! - contou, eufórico, apontando a linha do horizonte.
- Eu queria dizer-te que...
- Deve ter havido uma luta com um tubarão.
- Credo! Há tubarões por aqui ?!
Gargalha estrondosa.
- Foi só para ver a tua cara! - e riu-se outra vez.
- Ouve, eu...
- Mas há raias gigantes. E lulas. E polvos de todos os tamanhos, lá no fundo, claro.
- Está bem, mas...
- Eu costumo encontrar alguns quando nado mais longe.
- Estou a ver. Agora o que queria dizer-te era...
- Corais é que não há. É pena.
Impacientei-me:
- Chiu! Importas-te de me deixar falar ?!
Riu-se descaradamente como que a desafiar-me.
- Estás zangada, é ?
- Por enquanto não, mas vou ficar se não me deixares falar! Detesto que me interrompam.
- Já sei tudo. - atalhou com o maior descaramento
- Sabes o quê, afinal, hein ?!
- Ora, que gostaste do meu poema e que até o sabes de cor.
Levantou-se para sacudir a areia dos calções. Eu fiquei boquiaberta, mas não me dei por vencida:
- Por acaso enganaste-te. Não era isso que ia dizer-te, embora seja verdade...
Com a ponta do pé atirou-me areia para o colo e voltou a enfrentar-me:
- Era isso que ias dizer, sim senhora. Eu sei.
- Então não vale a pena dizer-te o resto, pronto. E nesse caso, posso voltar para casa, não é ?
Pontapeou de novo a areia e disse descaradamente:
- Se quiseres ir-te embora, vai. Não me importo.
Irritou-me o que acabara de dizer e foi a minha vez de lhe atirar areia. Por falta de pontaria acertei-lhe em cheio nos olhos. Ele correu para o mar e eu fui atrás para lhe pedir desculpa. Como ele mergulhou, mergulhei também e fui apanha-lo um pouco antes da rebentação.
- Mostra os olhos! - pedi eu.
- Não faz mal...
- Desculpa. - disse eu baixo, tremendo de frio.
- Só se me disseres o que ias contar há bocado.
Olhei para trás, as ondas começavam a aumentar de tamanho e tive medo.
- Podemos conversar antes na praia ?
- Não! Aqui! - ordenou.
Mergulhei para ganhar coragem mas quando voltei á superfície já ele se tinha evaporado como de costume.
Senti então uma mão gelada no meu ombro.
- Ah ah! Apanhei-te!
Virei-me para ele. Os olhos azuis, cheios de agua e de sal, brilhavam como nunca e agora olhavam-me com a maior curiosidade.
- O que ia dizer-te, é que hoje compreendi...
- Que gostas muito mais de mim do que dantes. Eu também gosto mais de ti. Baixei a cabeça desolada.
- Porque é que nunca me deixas acabar as frases ?! Porquê ?!
- Porque não é preciso.
Viemos os dois a nadar até à praia. Depois deixamo-nos cair sobre a areia quente e seca. Em seguida, levantou-se bruscamente e deitou-se noutra posição, de cabeça em frente á minha, cabelos colados aos meus e murmurou.
- É tudo verdade.
- O quê ?

- Aquilo que eu escrevi.

Autor@: Mariana (a minha sobrinha, que eu amo, amo...amo!)

7 comentários:

PatainiNiti disse...

A minha mais recente sobrinha... pela qual não consigo evitar o sentimento de encantamento quando leio o que escreve! Com a Alma maior que o Mundo e uma doçura esplêndida nas palavras... Adorei nha sobrinhamailindadomundoearredores!!! Um beijo bem salgadinho e fresquinho com o Mar!

amstist disse...

Tens uma supresa no meu blog,depois passa por lá.

Beijos na doce magia da Amizade e resto de uma boa semana.

Gui disse...

A miuda promete. Belo conto, muito bem escrito. Mas quem sai à tia não degenera, não é assim que se diz? Não, mas digo-o eu. Quando puderes vai às Coisas do Gui e traz um presente que tens lá para ti. Um beijo grande minha doce amiga

alexia disse...

Ah...eu amei a personagem feminina:))), gosto daquele feitio impulsivo e resingão, tipo "cão que ladra não morde":)))
Sabes o que te digo?! É tramado quando nos completam as frases:)

Beijo para a sobrinha em forma de concha e para ti um abraço gigante:)

Ki disse...

Gostei e gostei muito! Há aqui um 'je ne sais quoi' que tem tudo a ver com a tia da Mariana, e quem sai aos seus :)

E gostei particularmente de : "- O que ia dizer-te, é que hoje compreendi...
- Que gostas muito mais de mim do que dantes. Eu também gosto mais de ti."

Quando nos completam as frases e... quando nos lêem os pensamentos.


Beijinhos à Mariana (tempus fugit) e um beijo arrepimpado na tia.

luar perdido disse...

Parabens à Mariana! Minha querida quem sai aos seus não degenera!!!Peço-te desculpa por não ter ido a tempo de aceitar o teu mimo lindo mas imerecido, e não ter respondido correctamente! Obrigada pela tua amizade e docura minha querida, não mereço.
Beijinhos docinhos repletos de manso luar

Anónimo disse...

nunca leio blogs..
fantástico!
Não consegui tirar os olhos do ecrã até ao final...
sem palavras
mónica